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Campo Grande,11/01/2026

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Indígenas Terena reivindicam área histórica em Campo Grande apontada como antigo cemitério


Indígenas Terena reivindicam área histórica em Campo Grande apontada como antigo cemitério Direto das ruas

Em um episódio que traz à tona questões profundas de memória cultural, direitos territoriais e reconhecimento histórico, um grupo de cerca de 50 indígenas da etnia Terena passou a reivindicar oficialmente uma área localizada ao final da Rua Dolores Duran, no bairro Recanto das Paineiras, em Campo Grande. O grupo afirma que o terreno abriga um antigo cemitério indígena e representa um espaço de vínculo tradicional que remonta a várias gerações de famílias da comunidade que hoje vivem na capital. 

Segundo os membros, que protagonizaram movimentações no local nos primeiros dias de janeiro, o espaço – hoje reconhecido formalmente como um lote urbano e de propriedade particular – teria sido utilizado no passado como área de sepultamento de parentes e ancestrais, e contém vestígios que sustentam esse relato histórico e cultural. 

Origem da reivindicação e mobilização comunitária

De acordo com representantes do grupo – entre eles a liderança Sandra Terena –, a mobilização não surgiu de forma repentina, mas a partir de um processo de resgate histórico e cultural. Relatos orais e pesquisas internas feitas pela própria comunidade apontaram a existência de um pequeno cemitério indígena no local, onde antigos membros da etnia Terena foram enterrados há quase um século. 

“Aqui funcionava uma casa de apoio. Aos poucos fomos resgatando relatos de que ali existe um cemitério indígena, onde foram enterrados nossos parentes. Não buscamos luxo, buscamos apenas dignidade e um espaço para viver e preservar nossa cultura dentro da cidade”, afirmou Sandra, que preferiu resguardar sua identidade visual por questões de segurança. 

Objetivos da reivindicação: moradia e preservação cultural

Além do reconhecimento do caráter histórico do terreno, o grupo Terena pretende estabelecer naquele espaço uma comunidade indígena urbana organizada, que atenda às necessidades de moradia dos membros que já residem em áreas urbanas e que, segundo lideranças, vivem em condições de vulnerabilidade, muitas vezes pagando aluguel em contextos precários. 

“A proposta não é apenas moradia. O objetivo é criar um ambiente de convivência que permita cultivar nossa cultura, tradições, costumes e também promover atividades sustentáveis como plantio de árvores frutíferas para as futuras gerações”, explicou a liderança. 

O papel da Funai e da apuração técnica

A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) confirmou que tem ciência da reivindicação e anunciou que irá designar uma equipe técnica para averiguar a existência de vestígios que corroborem as alegações da comunidade sobre o antigo cemitério e a ocupação tradicional. Tal verificação técnica é considerada fundamental para que a reivindicação tenha base concreta diante dos critérios legais que regem o reconhecimento de territórios indígenas tradicionais.

Conforme o coordenador regional da Funai em Campo Grande, Dioni Alcântara Batista, “há necessidade de mais tempo para entender melhor a situação” e a análise técnica poderá abranger tanto vestígios físicos quanto elementos históricos e culturais que comprovem a presença tradicional do grupo no local. 

Aspectos legais e histórico-culturais da reivindicação

Especialistas em antropologia e direitos territoriais ressaltam que a presença de vestígios físicos – como um antigo cemitério – é um indício relevante, mas não o critério exclusivo para reconhecimento de um território como tradicional. O conceito legal, previsto no artigo 231 da Constituição Federal, considera a ocupação tradicional de um território pela comunidade, incluindo relações culturais, históricas e sociais, como elementos potencialmente aptos a embasar uma reivindicação territorial. 

Segundo o professor de antropologia Antônio Hilário, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a apuração deve equilibrar aspectos arqueológicos com narrativas culturais e histórias coletivas que demonstram vínculos duradouros entre o povo Terena e a área em questão. 

Contexto maior de conflitos e regularização em MS

Mato Grosso do Sul enfrenta um cenário mais amplo de conflitos relacionados à regularização de terras indígenas. Relatórios de organizações como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) destacam que o estado é um dos que mais apresenta pendências administrativas em territórios indígenas, com múltiplos conflitos e disputas por reconhecimento de áreas tradicionais. 

Esse pano de fundo coloca a reivindicação em Campo Grande dentro de um debate nacional sobre direitos territoriais, memória cultural e a presença contemporânea de povos indígenas nas cidades brasileiras, muitos dos quais buscam afirmar sua identidade e reivindicar espaços historicamente marginalizados ou fragmentados pela urbanização.

Repercussão local e respostas institucionais

Até o momento, a Prefeitura de Campo Grande não emitiu posicionamento oficial sobre o caso. A reportagem aguarda esclarecimentos sobre eventuais medidas que o poder público local possa adotar em conjunto com órgãos federais para mediar a situação ou conduzir estudos complementares. 

Memória urbana e reconhecimento histórico

A reivindicação resgata também uma discussão mais ampla sobre a relação entre memória urbana e ocupação indígena. Em outras áreas de Campo Grande, como a histórica Praça Ary Coelho, já se reconhece que espaços públicos passaram por transformações ao longo do tempo, ocupando locais que abrigaram cemitérios e evidências de usos anteriores no tecido urbano.






















A mobilização no Recanto das Paineiras coloca em evidência não apenas um direito territorial, mas também a necessidade de reconhecer a contribuição contínua e muitas vezes invisibilizada das populações indígenas no processo de construção da identidade da cidade. A expectativa agora é que a apuração técnica da Funai, aliada a um diálogo respeitoso entre todas as partes, possa lançar luz sobre uma história que transcende a mera propriedade imobiliária e reafirma a presença ancestral do povo Terena em Campo Grande.




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